domingo, 10 de maio de 2015

Samba


Calma, nada têm a temer, não vou começar uma crónica sobre samba para rivalizar internamente com a nossa crónica metaleira. Se por acaso o tema fosse samba ou algo remotamente relacionado com dança também nunca seria eu a pessoa indicada para falar disso.

Samba é um filme de Olivier Nakache e Eric Toledano, os realizadores de Amigos Improváveis (um dos filmes europeus de maior (e merecido) sucesso dos últimos anos) que nos trazem mais um drama/comédia com Omar Sy num dos principais papéis.

Representando o papel de imigrante ilegal senegalês, Omar Sy (Samba Cissé) mostra-nos as dificuldades que milhares e milhares na sua situação sofrem todos os dias em França: a dificuldade (acertada ou não) em arranjar um visto permanente de habitação em França leva à exploração de que são alvo os imigrantes, "obrigados" a trabalharem sem condições, sujeitos ao livre-arbítrio dos seus empregadores que devido à quantidade de mão de obra em condições semelhantes oferecem trabalhos e ordenados irrisórios e sem qualquer tipo de caracter de permanência e muitas das vezes apenas diários.

Samba, apanhado pelos SEF franceses sem visto apesar de viver há algum tempo em França em casa do tio que passou grande parte da sua vida lá trabalhando numa cozinha conceituada, fica à mercê do trabalho de uma ONG à qual pertence Charlotte Gainsbourg (uma das musas dos filmes de Lars Von Trier como por exemplo o famoso Ninfomaníaca (sem dúvida o pior trabalho dela com o Lars)) que tentam junto do tribunal designado para o caso um visto de permanência que não será concedido a Samba. Este, apesar de obrigado a sair de França, mantém-se por lá com mais cautelas que antigamente para não ser apanhado.

Samba cruza-se ao longo desta jornada com um personagem interessante, Wilson (Tahar Rahim) que finge ser brasileiro por achar que estes têm mais benefícios em termos de permanência em território francês do que os imigrantes vindos de África. Samba, esse vai alimentando um romance com Charlotte que cresce não se percebe bem como (na realidade, nenhum de nós sabe como cresce um romance, por isso isto não pode ser bem uma crítica a apontar), aliás, tudo isto começa por Alice (Charlotte) ter ignorado uma ordem fácil de seguir: não dar o número de telefone nem se relacionar pessoalmente com os clientes. O que é que ela faz estando 10 segundos a sós com Samba? Dá-lho. Continuando, Wilson acaba por se relacionar com quem? Com quem deu a ordem a Alice...

Uma confusão num rio de onde Samba sai praticamente impecável juntamente com a sua camisa branca (a sério, ele cai ao rio e aparece sem qualquer marca disso a seguir, é milagre) é o acontecimento que faz a transição para a parte final do filme onde Samba terá de escolher ficar e lutar pela vida que pode ter ou ir para um outro lugar e começar do zero.

O guião está cheio de clichés e facilitismos no mesmo (como a cena do número de telefone), a maioria deles completamente desnecessários ou apenas usados por falta de imaginação para dar seguimento ao filme.

A banda sonora? Está, tal como em Amigos Improváveis, maioritariamente a cargo de Ludovico Einaudi, o génio detrás do piano, por isso é perfeita.

O filme em si? Seria muito melhor se rondasse a hora e meia. Assim, apesar de cenas adoráveis com a Charlotte (como uma cena de dança entre ela e Tahar onde está maravilhosa), a representação amigável de Omar Sy e Tahar ser um acrescento cómico muuuuuuuito bom ao filme, ficamos com a ideia de ser demasiado longo para tantas "falhas" e más construções que acaba por apresentar. No entanto, é um retrato interessante do que vos disse logo acima, e só por isso merece uma consideração especial, não se veem muitos filmes conhecidos explorando este tema da imigração.

6/10

(Banda sonora: 10/10)

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=-tqzwbjy0WQ

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Metaleiro - Episódio 3 - "Recordando as Almas"



Decorria o dia 24 de Abril de 1915 e em Istambul (antiga Constantinopla) se colocou em marcha um plano intencional e premeditado de várias detenções de lideres arménios. Estes foram torturados e massacrados.Foi o início oficial de um extermínio ao qual vários historiadores não conseguem dar uma data em concreto do seu início tendo apenas ficado registado este que citei. Estamos a falar do primeiro genocídio da humanidade, um que (dizem os historiadores) viria a inspirar o Holocausto na 2ª Guerra Mundial. Estamos a falar do Genocídio arménio por parte do império Otomano. 

Porque decidi falar sobre isto? Precisamente porque até conhecer System of a Down há uns anos atrás nunca teria lido sobre isso e mesmo assim apenas agora que se assinalam os 100 anos do início desta atrocidade é que ouvi alguém como o Papa falar sobre este acontecimento. E porque é que este é um acontecimento tão abafado na comunicação social? Precisamente porque o governo Turco recusa aceitá-lo como verdade. Exactamente isto. E a aliança Turca para muitos países (USA por exemplo) é extremamente importante. A verdade é que desde 1915 a 1917 foram mortos mais de 1,5 milhões de arménios - queimados vivos, afogados, em campos de concentração (sim foi aqui que se começou), entre outras formas. No entanto destaco uma particularmente cruel - as marchas da morte - nelas arménios a residirem no império Otomano foram deportados, isto é simplesmente expulsos do país e sem hipótese de levarem nada com eles foram colocados no deserto, sem água nem comida, apenas para morrerem numa longa caminhada em direcção a lado nenhum. E porquê a perseguição ao Arménios? Pois bem, porquê a perseguição aos Judeus na 2ª Guerra Mundial? Ou seja, simplesmente por diferenças sociais, culturais e religiosas. Os historiadores são praticamente unânimes, estes foram actos premeditados de profundo desprezo e 100 anos depois a república da Turquia ainda mantém a versão de que não passaram de mortes acidentais e de números de vítimas, dizem eles, historicamente incorrectos.

Porque é que eu estou a escrever sobre isto? Pois bem, a banda System of a Down, banda de metal norte americana mas de origens arménias (descendentes directos de arménios que conseguiram fugir a estas atrocidades) como forma de protestar e assinalar os 100 anos do inicio do primeiro genocídio documentado dos tempos modernos decidiram fazer uma tour chamada "Wake up the Souls", um espectáculo de 2h 30m em que pelo meio das suas músicas (super interventivas e com várias referências a este evento) e de cartoons, tentam expor a verdade que a Turquia quer negar e tentam levar esta história a todo o globo como forma de protesto e como forma de lembrar as "almas" que foram perdidas, prestando-lhes homenagem. Isto seria tudo bastante interessante já por si, não fosse o facto de eles terem dado um concerto no dia 24 de Abril de 2015, precisamente 100 anos depois da data oficial, em Yerevan (capital da Arménia). Foi o primeiro concerto da banda em território Arménio em quase 20 anos de carreira de banda e foi um concerto de entrada gratuita.

Neste concerto podemos ver os elementos da banda, todos eles de origem arménia, a dar um espectáculo absolutamente estrondoso e cheio de sentimento. Cada grito era um grito sentido, era um grito de revolta e um grito de exultação da sua cultura e identidade. Uma enorme homenagem às suas origens e um grande "dedo do meio" virado directamente para a Turquia. Porque afinal de contas, System of a Down nunca foram de meias palavras.

Não me quero alongar mais sobre este tema, o meu propósito nisto tudo era apenas "recordar as almas", tentar dar o meu contributo para este movimento que eles estão a tentar lançar. Se alguém ler estes meus textos e ficar nem que seja com um bocadinho da noção do que se passou, mesmo que não pesquise mais fundo sobre o tema, acho que consegui fazer a minha parte. Não podemos deixar passar impunes crimes de guerra. Não podemos branquear o que está errado. Qualquer genocídio seja da Arménia, do Holocausto, do Ruanda, qualquer crime de guerra, qualquer injustiça social e política, temos que fazer uso da nossa voz para os expormos e se mudar o que está feito é impossível, então que os responsáveis assumam e sofram com as consequências. Nunca a Turquia chegou a ser responsabilizada por estes actos e isso não pode sair impune, mas definitivamente não pode ser esquecido.

O Metal é isto mesmo: dar a voz sem papas na língua; descarregar energias com concertos electrizantes que servem quase como expurgações da alma. Unir povos e culturas, sim porque eu acredito que assumir os erros é meio caminho andado para não digo um perdão, mas uma união com o objectivo "maior" em vista. O Metal, como qualquer outra arte serve também como forma de luta por um mundo melhor onde as injustiças serão diluídas e todos poderemos viver num só planeta de mãos dadas e em prosperidade. Mas para isso acontecer, temos que nos fazer ouvir contra tudo o que está mal - da maneira mais ruidosa e brutal possível.

Com isto não quero dizer que todos os cidadãos turcos ou de origem Otomana são responsáveis por estes actos, como é óbvio. Conheço e sou amigo de pessoas Turcas que têm a noção que isto aconteceu e admitem o genocídio, tal como muitas outras injustiças e corrupções que actualmente têm no seu país. Os Turcos são pessoas muito inteligentes e principalmente os jovens estão a começar a erguer-se contra este governo e já há mesmo muitos que apoiam esta causa pelo reconhecimento do genocídio arménio por parte do Governo Turco. O que falo apenas é do reconhecimento institucional e político destes crimes horrendos.
Este é um tema muito complexo e tudo o que estou a dizer aqui merece uma pesquisa muito mais aprofundada para uma total compreensão do problema. Não pude como é óbvio detalhar e entrar nas motivações que se supõem que os Turcos terão tido, mas como é óbvio - nenhuma motivação é justificativa de 1,5 milhões de mortos... Apenas relatei factos e qualquer leitor mais interessado deverá fazer a sua pesquisa. Faltam aqui, no entanto, muitos outros factos, motivações e contextos que para não tornar isto ainda mais extenso, não pude explicar. Aconselho vivamente a uma pesquisa e a verem este concerto  - deixo o link aqui em baixo para os mais interessados.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Bronson



Bronson é, com a devida dose de exagero (e não é pouca) à mistura, a Laranja Mecânica ou A Clockwork Orange - como preferirem - contemporânea.

Não sou um particular fã da obra de de Kubrick, sempre me pareceu um realizador frio, com um trabalho que nem sempre me foi fácil de relacionar. Não quero dizer com isto que um dos maiores realizadores da história não tem assim tanta qualidade. Tem, mas também não é isso que está aqui a ser falado, estamos a falar de Bronson, um filme realizado por Nicolas Winding Refn, e o cunho, esse, é totalmente pessoal, já vão perceber porquê. Quanto a Kubrick (novamente, desculpem), as comparações terminam na linha ténue entre entretenimento, arte, cinematografia e mensagem, algo que Kubrick dominava como poucos, já Nicolas nem tanto, mas ainda bem, até porque Nicolas deverá querer ser ele mesmo e não outrem.

Bronson traz ao seu espectador a vida de Michael Peterson e do seu alter-ego Charles Bronson. Para quem não sabe, Bronson é considerado um dos piores (ou melhores, depende da perspetiva) prisioneiros britânicos da história tendo estado preso 30 e mais uns quantos anos, sendo desses 30 e tantos anos uns trinta e uns pozinhos deles passados na solitária.

Tom Hardy é capaz de fazer o papel da sua carreira em Bronson, e atenção que eu sou fã de Warrior onde está magnífico, The Drop, Locke (também recomendo) e até mesmo do seu papel como o vilão Bane em Batman. Em Bronson, Hardy tem além da transformação física (apresenta-se a nós completamente careca, com um bigode e uns quilos a mais) uma amplitude psicológica que não está ao nível de todos, sobretudo para quem via Tom como um ator feito para papéis de durão, sisudo e sem grande alcance ele desengana-nos. É certo que é tudo o que eu referi atrás, mas é além disso bem mais e faz o papel de completo lunático, demente, desamparado e obcecado em lutar com toda a gente para poder passar uns tempos na prisão, ou na solitária, cantinhos escuros e desprovidos de alegria que ele considera segundo palavras suas como pequenos quartos de hotéis. Celas onde tem monólogos excelentes, fazendo por vezes recordar algumas cenas da grandiosa série da HBO, Oz.

Bronson faz o que Alex, interpretação mítica de Malcolm Mcdowell no clássico de Kubrick faz: questiona o telespectador sobre qual o lugar, qual a solução, qual o propósito e o que têm estes delinquentes lunáticos para oferecer à sociedade, se é que têm alguma coisa. Bronson dá-nos uma mostra disso no final do filme. Como diz Bronson/Hardy no início do filme, "tenho um dom, só não descobri qual". Uma frase que nos faz questionar sobre o papel das prisões na readaptação dos presos à sociedade, mais do que uma encarceração dispendiosa para o Estado talvez devesse ser algo mais, mas isto não passam de utopias, todos nós precisamos de uma ou outra utopia na nossa vida para que esta se torne mais suportável em certas alturas.

Perturbador, esquizofrénico, engraçado, Bronson "just wanted to be famous" e abraça o seu lado animal.

O cunho de Nicolas é inigualável, mais que não seja numa banda sonora de maioritariamente technopop ao estilo de Drive ou Só Deus Perdoa (ambas obras dele com Gosling no papel principal).

7/10

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=GMJ1c3qxOWc

segunda-feira, 4 de maio de 2015

The Hunger Games - Mockingjay Pt1

Caros leitores, amigos, familiares e conhecidos; Há uma certa altura da nossa vida que temos que evoluir e procurar um tipo de escrita mais formal bem como um registo mais profissional. Afinal de contas somos uma página de cinema a caminho de ser conceituada (no alto dos nossos 200 likes) e como tal julgo que atingi todo meu esplendor de crítico de cinema no texto que segue abaixo. Peço desculpa por todos os meus devaneios passados e todas as mentes que posso ter poluído e ofendido. Passo então à "review" de um dos filmes com melhor bilheteira do ano de 2014.


The Hunger Games - Mockingjay Pt1

A Jennifer Lawrence é toda boa. É verdade, ela não é só uma rapariga muito bonita, ela é simplesmente toda boa. E foi com este pressuposto que tenho assistido a todos os filmes desta saga medíocre (deal with it). Sempre que a J. Law aparece no ecrã sinto calores, ela é mesmo boa.

Há medida que o filme começa vemos a J.Law de macacão, é uma pena.
20 minutos de filme e ela ainda está de macacão. Mau...
30 minutos e ainda está de macacão... começo a ficar desiludido.
35 minutos e aparece de fato justo! Agora sim é que o meu dinheiro  foi bem empregue! Sim porque eu vi este filme em cinema/dvd (wink wink).
40 minutos de filme e aparece a outra rapariga toda boa que aparece em Game of Thrones, a minha pessoa fica extremamente contente, mas não compreende porque é que ela também está de macacão! (Infelizmente para mim ela continuou de macacão o resto do filme...)


Depois de tiros, explosões, cenas imprevisíveis e discursos bonitos acaba o filme e sinto-me contente porque foi um filme interessante. Ah e por que tinha a J. Law. 

É verdade que no meio há uma enorme filosofia política, social e existencial por trás, mas isso não interessa para nada, nós queremos mesmo é a J. Law num fato justo.

Nota da actriz principal: 10/10
Nota do filme: 7/10

PS: Os minutos que retrato nesta review são puramente ficção, foi a sensação que me deu na altura mas acham mesmo que eu ia tirar os olhos do ecrã e da J. Law? Estão todos malucos.

PPS: Depois de publicado este texto a minha namorada está chateada comigo, não compreendo mesmo as mulheres.

PPPS: Dedico esta review ao meu amigo Rafael que está na Suécia, eu sei que a J. Law é a tua musa.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

"Sono" - Haruki Murakami

"Há dezassete dias que não durmo." - Eu? Não! Fonix, se não dormisse há dezassete dias eu acho que neste momento já estaria a imaginar elefantes cor de rosa a pedalar na lua enquanto fumavam charros e ao som de Bob Marley tentavam criar uma versao Gospel da "One Love" - (Voz Rastafari - "One Loveeeeee.... One Heart... Let's get together and feeeeel alright Man"). Isso ou estaria morto. Acho mais provável esta última.


Pois é, já há algum tempo que estava para começar a ler este senhor - Haruki Murakami - e aproveitei o facto de poder ter em minha posse este belo livro para me iniciar na escrita dele. O livro segue uma mulher nos seus trinta que depois de um episódio de "sleep paralysis" simplesmente não consegue mais dormir. Mas este efeito em vez de causar uma exaustão extrema, muito pelo contrário aguça-lhe a mente e o físico e faz ela questionar-se acerca das prioridades da sua vida. Acompanhamos uma personagem que aparentemente perdeu a graça de viver e ignorava a triste realidade e rotina em que se encontrava. O facto de ter, agora que não sentia vontade nem precisava de dormir, mais tempo para si mesma e para os seus pensamentos cria uma nova rotina e um rejuvenescimento espiritual e mental que motiva a personagem principal a questionar a sua identidade, o seu amor pela família e até mesmo a realidade. Este é num livro em que a paranóia e a filosofia se misturam numa linguagem simples, directa e acessível naquela que é uma escrita muito inteligente, elegante e complexa, que esconde mais que aquilo que diz e torna realmente torna Murakami (dizem os especialistas) um dos melhores escritores da sua geração (eu concordo, mas quem sou eu?). Esta é uma história curta e envolvente que vos vai deixar com tudo menos com "Sono" e no final nos deixa extremamente pensativos e a conjecturar cenários e teorias do que realmente se passou e do que realmente faz sentido. Porque afinal de contas, o que é a realidade?

Na produção deste livro Murakami associou-se à artista alemã Kat Menschik que ao longo do livro apresenta ilustrações lindíssimas que acompanham a narrativa e que trazem um brilho e uma aura especial a este livro. Posso dizer que pela primeira vez compreendi o facto de certos livros trazerem ilustrações e asseguro que a minha experiência com este livro teria sido muito diferente, teria perdido uma certa magia que se mantém presente ao longo do livro. Até porque estas ilustrações são como um espelho para a acção, um retrato do que a protagonista está a sentir num estilo de desenho cativante, subtil e mágico. Segue em baixo exemplos de ilustrações encontradas na obra, mas muitas mais estão presentes e aconselho mesmo a lerem e acompanharem os desenhos para sentirem o espírito todo do livro.



Finalmente tenho que comentar que o Sr Haruki Murakami é o maior troller da história do universo. Não é que eu estava a ler o livro e muito bem assim do nada o raio do Japonês me spoila o final da Ana Karenina, livro que infelizmente só tive a oportunidade de ler o primeiro volume?! Pah Mura, nem todos nós lemos a porcaria do livro! Azar o meu que tive que ler este exactamente entre o volume 1 e 2 da obra prima de Tolstoi! Enfim... Há pessoas que simplesmente nasceram com azar.

Minha nota: 8/10

quarta-feira, 29 de abril de 2015

"O Metaleiro" - Episódio 2 - "A Inspiração"

A Inspiração


"Maybe It's not enough, Maybe this time it's just too much, Maybe I'm not that tough, Maybe this time the road is just too rough to walk down... So I sit down" - Daniel Gildenlöw - "Road Salt" by Pain of Salvation



O que escrever?

Parece uma pergunta básica, e enquanto pergunta realmente o é, no entanto para pessoas que têm uma certa necessidade de se exprimirem, seja pela escrita, pela música ou por qualquer outra forma de expressão artística, esta é uma pergunta que nos aflige demasiado. Este segundo episódio chamo-lhe de "inspiração" porque simplesmente não sei o que escrever e isso aflige-me.

Estas palavras nascem e brotam tal como notas musicais num espectáculo de improviso. Não precisam de um tema, precisam de um contexto. Esse é um dos primeiros problemas de falta de inspiração e é esse contexto que temos que trabalhar, enquanto artistas. Não há nada mais contraproducente que a obrigatoriedade de escrever/compor e é por isso que quando não existe contexto e estou à frente de uma página branca simplesmente me desligo de tentar fazer o que quer que seja. Eu como artista procuro dissociar a minha alma e dar um cunho de mim a tudo o que faço, bom ou mau, gostem do que faço ou não gostem, ao menos parte de mim estará lá e estarei a ser sincero. Por isso escrever sem ter contexto é o mesmo que estar a mentir e/ou prostituir, posso até ter palavras bonitas ou uma boa melodia e posso até vir a estar a receber dinheiro por isso mas não deixa de ser falso e nojento. 

E quando sentes que há contexto mas as palavras não saem? Meus amigos, este é o pior sentimento que se pode ter - é como estarem a tentar respirar mas alguém vos tem a boca tapada e nem gritar conseguem e quanto mais pensam sobre isso mais bloqueados estão. É um sentimento brutal e esmagador porque nos sentimos impedidos pela nossa própria natureza de sermos nós mesmos, porque sentimos demasiado e as palavras não reflectem bem aquilo que queremos dizer ou porque há simplesmente demasiado para se dizer sobre aquilo que sentimos ou porque não há nada que consiga ser dito sobre aquilo que sentimos. Outras vezes porque não há nada que possa ser dito sobre o que não se sabe que se tem.




A inspiração varia de pessoa para pessoa, desde situações vividas, a filosofias de vida, desde pensamentos que vão amadurecendo como mensagens que têm que ser ditas, cada um escolhe o seu "veneno". Desde que sejam sinceros, eu pessoalmente considerarei que é arte. E o Metal tal como qualquer outra arte é um estilo musical que supõe o envolvimento dos ouvintes na mensagem com o objectivo de tentar criar uma reacção, seja ela pessoal, social ou religiosa. Seja ela qual for.

Quase 2 semanas depois de ter escrito/composto algo, o autor deste texto passou pela segunda fase aqui descrita, quebrando o jejum com este texto. A minha inspiração foi ela mesma e o contexto foi este. Simples? Não. Alguns diriam necessário, eu digo natural.

Quando me sinto mais em baixo e mais "overwhelmed" oiço a música que apresento no início desde texto, porque às vezes antes de nos precipitarmos para o fim da estrada, se não soubermos o passo que temos que dar de seguida é melhor sentar e esperar que a poeira assente.

PS: Como já deu para entender este não é (só) um espaço cómico ou (só) sobre o metal. Mas sim a minha perspectiva sobre aquilo que eu quiser falar. Escreverei e serei sincero e não sentirei a pressão de ter que escrever.
PPS: MAS AGRADEÇO QUE ME DÊEM TEMAS PARA EU NÃO FICAR A SENTIR-ME MAL DE NÃO ESCREVER :) -> Podem dar o vosso contributo nos comentários tanto do facebook como do blogger - SE TIVEREM UMA DÚVIDA E QUISEREM OUVIR A PERSPECTIVA DE UM METALEIRO SOBRE O ASSUNTO - PP16 AO VOSSO DISPOR! 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Goal!


Não é fácil fazer um filme acerca de futebol. Parece estranho, dado que é o desporto mais popular na Europa e um dos mais populares em todo o mundo. Aparentemente até tem tudo para ser resultar, com histórias bastante interessantes e jogadores que realmente deixaram marca além daquilo que fizeram dentro de quatro linhas. Mas, ainda assim, não há muitos filmes interessantes acerca de futebol. Esta é uma excepção.

Goal! tem logo desde início uma particularidade interessante; não se centra na história de um jogador real. Com tantos jogadores dignos de terem um filme, vamos aqui seguir Santiago Munez, um talentoso jovem mexicano que procura seguir o seu sonho de ser futebolista profissional num grande clube. Seguimos a problemática vida do jogador até chegar ao Newcastle, onde vem a triunfar depois de lutar contra uma série de adversidades.

Não é tanto a história dentro de campo que me fascina neste filme, mas sim tudo o que se passa em volta. Quando digo que não é fácil fazer um filme sobre futebol, muito se deve ao facto de não ser possível simular, com qualquer credibilidade, um jogo de futebol. Tudo vai parecer artificial e falso, os movimentos, as fintas, os remates, os golos... tudo o que torna este jogo tão especial vai perder a magia e, consequentemente, a filme vai falhar, inevitavelmente. Goal! ganha no modo como deixa isso para segundo plano (quando foca o que se passa em campo também falha, como qualquer outro filme), preferindo focar as dificuldades de um futebolista.

Munez é talentoso e cedo percebemos que isso não é suficiente. A sua história de vida não é fácil e a relação que vem a ter com os colegas e treinador quando se transfere para o Newcastle United também não vem propriamente ajudar. É o lado do futebol que não vemos, mas que tem um efeito enorme no desempenho de jogadores e equipas. Ainda que este filme não seja propriamente uma obra-prima, penso que esteve muito bem a passar a mensagem que passou e a contar uma história que, sabemos, não está ao alcance de 99,9% dos que aspiram ser futebolistas.

A par do The Damned United, do Tom Hooper, este é o melhor filme acerca de futebol que vi até hoje. Não é expectável que venham a existir muitos mais e ainda menos mais que consigam ter um nível de qualidade aceitável, mas até lá não me vou cansar de apreciar este Goal! tantas vezes quanto o apanhar a passar em TV (e acreditem que passa bastante...).

7.5/10